Você tem uma foto dele, ou nem isso. Tem um sobrenome, uma versão da história contada pela sua mãe, e uma lembrança de estar sentada na sala esperando alguém que não chegou naquele domingo. Ou então ele estava lá, todo dia, jantava com vocês e ainda assim você não conseguiria dizer uma única coisa que ele pensava sobre você.
Quem procura por pai ausente quer saber duas coisas. O que isso deixou. E o que ainda dá para fazer, agora que você tem quarenta e ele tem setenta, ou está morto, ou não atende. A resposta honesta é que a parte que dependia dele quase nunca chega, e a parte que depende de você é bem maior do que costuma parecer.
Nem toda ausência tem a mesma forma
Vale separar, porque o efeito muda.
O pai que foi embora e sumiu. Aqui a criança fica com uma pergunta sem resposta, e crianças respondem sozinhas às perguntas que ninguém responde. Quase sempre respondem contra si mesmas.
O pai que foi embora e continuou por perto pela metade. Aparece no aniversário, some por três meses, promete e não vem. Esse formato costuma doer mais do que o sumiço completo, porque renova a espera.
O pai que ficou e nunca chegou. Morava na casa, pagava as contas, assistia ao jogo. Não perguntava, não conversava, não sabia o nome da sua melhor amiga. É a ausência mais difícil de nomear, porque de fora parecia família inteira.
O pai que morreu cedo. Não escolheu ir. A criança é poupada da leitura de rejeição e não é poupada da falta. Muitas vezes ninguém deu espaço para o luto na época, e ele fica esperando trinta anos, assunto que trato em o luto de quem fica.
O pai que nunca foi identificado. Um espaço em branco na certidão e uma história que a família preferiu não contar. O silêncio, aqui, costuma pesar tanto quanto a ausência.
O que costuma ficar
Nada disso é regra, e faz diferença dizer isso com todas as letras: muita gente cresceu sem pai e construiu uma vida afetiva estável. O que segue é o que aparece com frequência, não o que está determinado.
Uma dificuldade específica com confiança. Não desconfiança de todo mundo. Desconfiança de que alguém vai permanecer. A pessoa entra nos vínculos já calculando a saída.
A sensação de não ter valido o esforço. Se ele não ficou, alguma coisa em mim não bastou. Esse raciocínio é falso e é feito por uma criança, o que explica por que ele resiste a argumento adulto.
Um padrão que se repete nas escolhas afetivas. Homens indisponíveis, relações que não avançam, uma atração forte por quem não fica. É o território de por que sempre atraio o mesmo tipo de pessoa.
Uma relação tensa com segurança material. Quando faltou dinheiro junto com o pai, o corpo aprendeu que segurança é frágil. Isso costuma sobreviver ao aumento de renda.
Raiva que não tem endereço. Vira irritação com o marido, com o chefe, com o trânsito. A raiva antiga precisa de alvo, e escolhe o que está por perto.
Procurar ou não procurar
Muita mulher chega aos quarenta com essa pergunta parada na garganta. Não existe resposta certa, mas existe uma distinção útil.
Procurar para saber costuma valer a pena. Nome, história, saúde da família, de onde veio o rosto que você vê no espelho. Informação organiza. Mesmo uma história feia é melhor do que um buraco, porque história tem contorno e buraco não tem.
Procurar para receber costuma decepcionar. Reconhecimento, desculpa, explicação, aquela frase que faria tudo fazer sentido. Quem sumiu raramente tem estrutura interna para dar isso. Ele vai se defender, minimizar ou culpar sua mãe. Prepare-se para essa possibilidade antes de discar.
Se for procurar, combine três coisas com você mesma: o que exatamente você quer saber, quanto tempo vai durar o encontro e para quem você vai ligar depois. O depois é a parte que as pessoas esquecem de planejar, e é a parte mais dura.
Quando é o pai dos seus filhos que está ausente
Existe outra versão dessa busca, e ela chega aqui com frequência. Não é o seu pai. É o pai das suas crianças, que sumiu, que aparece de vez em quando ou que está presente no papel e ausente na prática.
Duas coisas costumam ajudar. A primeira: não transformar seu filho em tribunal da ausência dele. A criança precisa de espaço para ter os próprios sentimentos, inclusive saudade de alguém que te fez muito mal. A segunda: a parte prática tem caminho próprio, e ele é jurídico. Pensão, guarda e regulamentação de convivência se resolvem com advogado, defensoria pública e mediação, não com terapia. O que a terapia faz é cuidar de quem está carregando o peso, assunto que continua em divórcio e os filhos no meio.
O que o trabalho espiritual propõe, e o que ele não faz
Quando a falta do pai já foi olhada de vários ângulos e ainda ocupa espaço, muita gente procura o Osatoshi, prática espiritual japonesa da tradição da Shinri. Não é tratamento de saúde, não avalia doença e não promete que ele volte, ligue ou reconheça nada.
Dentro dessa tradição, o vínculo com quem veio antes é tratado como relação viva, inclusive quando a pessoa já morreu. O trabalho se dirige a essa relação: reconhecimento, ordenação, pedido, gratidão pelo que houve, mesmo que tenha sido pouco. Não existe estudo científico sobre isso, nem mecanismo demonstrado, e eu prefiro dizer isso a sugerir uma solidez que não existe. O que se relata é discreto: uma sensação de assunto encerrado, um sonho que trouxe alívio, menos aperto ao falar o nome dele. Quando o pai já morreu, o formato específico está em Osatoshi de falecido.
O que se faz com o lugar vazio
Não se preenche. Essa é a parte que ninguém gosta de ouvir e que costuma ser a mais libertadora. O lugar do pai que você precisou aos oito anos não vai ser ocupado por marido, por chefe, por terapeuta nem por um homem de sessenta anos que resolveu ligar.
O que acontece, com trabalho e com tempo, é que o lugar para de puxar. Você deixa de procurar aquilo em relações que não podem dar. Passa a reconhecer o momento exato em que a criança que esperava assume o volante. E, num certo dia, percebe que falou o nome dele sem que o peito fechasse.
Se quiser conversar sobre como isso se organiza no seu caso, o contato está aberto.
Ele não voltou. Você cresceu assim mesmo, e continuou. Boa parte do trabalho que resta é parar de descontar em si uma conta que nunca foi sua.
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Falar comigoPerguntas frequentes
- Quais são as consequências de um pai ausente na vida adulta?
- Não existe um destino fixo, e desconfie de quem descreve um. O que aparece com frequência são dificuldades com confiança em vínculos, uma sensação persistente de não ser suficiente e uma relação tensa com segurança material. Muita gente cresceu sem pai e construiu vida afetiva estável, então isso descreve tendências, não sentença.
- Vale a pena procurar o pai que me abandonou?
- Depende do que você espera encontrar. Procurar para saber a história costuma valer. Procurar para receber reconhecimento ou pedido de desculpas costuma decepcionar, porque quem sumiu raramente tem recurso interno para isso. Vá com a expectativa mais baixa que conseguir e com alguém para conversar depois.
- Dá para resolver a falta do pai sem ele?
- Dá para reduzir bastante o peso dela, sim. A parte que depende dele, a reparação, quase nunca vem. A parte que depende de você é maior do que parece: reconstruir a história, chorar o que não houve e parar de procurar aquele lugar em relações que não têm como preencher.
- Meu pai morreu cedo. Isso conta como pai ausente?
- Conta como ausência, com uma diferença importante: não houve escolha de ir embora. Isso costuma poupar a criança da leitura de rejeição, mas não poupa a falta. Perda precoce de pai ou mãe pede espaço de luto próprio, que muitas vezes ninguém deu na época.