Mais um teste negativo. Você já sabe a hora exata em que dá para olhar, já conhece o silêncio dos três minutos, já decorou o gosto do dia seguinte. Na festa de sábado alguém vai perguntar de novo quando vem o bebê, com a melhor das intenções, e você vai sorrir e mudar de assunto. Ontem sua prima anunciou a segunda gravidez no grupo da família e você ficou feliz e chorou no banheiro, as duas coisas.
Quem chega aqui procurando alguma resposta sobre o bebê que não vem precisa ouvir duas coisas antes de qualquer outra. A primeira é prática: o caminho principal é investigação médica, e ela existe, funciona e esclarece muita coisa. A segunda é mais importante ainda: isso não é culpa sua. Não é por falta de relaxar, não é por pensamento errado, não é por bloqueio, não é por merecimento. Dificuldade para engravidar é questão de saúde e merece ser tratada como tal.
A investigação médica vem primeiro, sempre
A orientação mais usada é procurar avaliação depois de doze meses de tentativas sem sucesso, ou depois de seis meses quando a mulher tem mais de trinta e cinco anos. Se existem ciclos irregulares, endometriose, cirurgias anteriores, doenças da tireoide ou perdas gestacionais, não espere prazo nenhum: procure antes.
A investigação costuma envolver exames hormonais, avaliação das trompas e do útero, e a avaliação do parceiro. Esse último ponto merece destaque, porque muita mulher passa dois anos investigando sozinha: o fator masculino participa de uma parcela grande dos casos, e o espermograma é um exame simples que deveria estar entre os primeiros. Existem ainda situações em que nada é encontrado nos dois, o que é frustrante e não significa que não haja o que fazer.
Se o custo é uma barreira, vale procurar a Unidade Básica de Saúde do seu bairro e perguntar pela rede: existem serviços públicos habilitados em reprodução humana em algumas cidades, além do acompanhamento ginecológico e da investigação inicial pelo SUS. As filas costumam ser longas e vale entrar nelas cedo, mesmo que você também esteja buscando caminho particular.
Sobre a frase relaxa que vem
Preciso desmontar isso com todas as letras, porque é a frase que mais machuca e a mais repetida.
Não existe base para afirmar que ansiedade impede uma gravidez. Estresse intenso pode afetar o ciclo de algumas mulheres, e isso é diferente, muito diferente, de ser a causa da infertilidade. Quando alguém diz relaxa que vem, o que está sendo transmitido é que o problema é o seu jeito de sentir. Aí a mulher passa a vigiar os próprios pensamentos, se culpa por ter chorado, se culpa por ter pesquisado, se culpa por querer demais.
O mesmo vale para versões espirituais dessa frase. Não trabalho com a ideia de que alguém não engravida por bloqueio, por energia, por não estar pronta ou por não ter resolvido algo com a mãe. Isso não tem sustentação e produz um estrago enorme em quem já está sofrendo.
A solidão de quem tenta
Existe um tipo de solidão que só quem passou reconhece. A vida inteira organizada em torno de datas: o dia do exame, o dia da coleta, o dia de saber. Uma agenda secreta que não pode ser explicada no trabalho. Convites recusados sem motivo aparente. Chá de bebê que você vai porque não ir seria pior.
Some a isso o cansaço de administrar a curiosidade dos outros. As perguntas na festa, o comentário da sogra, a colega que diz que você deveria começar logo porque o relógio está correndo. Quase ninguém pergunta como você está. Quase todo mundo pergunta quando vem.
Vale dar a si mesma permissão para algumas coisas: não ir em determinados eventos, silenciar um grupo por uns meses, responder com uma frase pronta e curta, sair do chá de bebê antes do final. Isso não é fraqueza. É administração de energia num período que já consome tudo.
O peso é desigual e vale nomear. A mulher é quem faz mais exames, quem toma mais medicação, quem sofre os procedimentos, quem é perguntada nas festas, quem escuta comentário sobre idade e quem, com frequência, é apontada como origem do problema mesmo antes de qualquer resultado.
Também é quem, muitas vezes, precisa ausentar-se do trabalho para consultas sem poder explicar por quê. Se você está passando por isso, não está sendo dramática. Está carregando, sozinha, um peso que deveria ser dividido em pelo menos duas partes.
O luto que quase ninguém reconhece
Cada ciclo que não deu certo é uma perda pequena, e elas se somam. Um tratamento que não funcionou é uma perda grande. Uma perda gestacional é um luto completo, com todas as características de qualquer luto, e costuma receber um décimo do reconhecimento social que receberia outra morte.
Essas dores merecem espaço, tempo e escuta, do mesmo modo que trato em o luto de quem fica. Para quem viveu uma perda gestacional e procura um lugar simbólico para isso, escrevi sobre Osatoshi de bebê abortado, que é um trabalho de despedida e reconhecimento, não um tratamento e não uma promessa.
O casal no meio disso
Sexo com hora marcada, por meses, deixa de ser encontro e vira tarefa. Muita relação esfria exatamente aí, e depois o casal se culpa por isso também. Se esse é o seu caso, o assunto continua em relação sem sexo.
Duas coisas costumam ajudar. Combinar períodos sem tentativa, em que o encontro é só encontro. E falar sobre o que cada um está sentindo, porque é comum que um dos dois se cale para não piorar o do outro, e o silêncio afasta mais do que qualquer conversa difícil.
O que a terapia integrativa pode oferecer aqui
Vou ser preciso, porque este é um território onde muita promessa é vendida.
Nenhuma prática que eu ofereço aumenta a chance de engravidar, e eu não trabalho com essa proposta. As revisões sobre acupuntura em tratamentos de reprodução assistida são inconsistentes e não sustentam essa afirmação. A acupuntura está na política nacional de práticas integrativas desde 2006 e tem literatura mais robusta em alguns quadros de dor, o que é outro assunto.
O Reiki, incluído na mesma política desde 2017, é procurado nesse período por outra razão: uma hora de descanso, sem exame, sem agenda, sem ninguém perguntando nada. Reconhecimento em política pública não é comprovação de eficácia, e a revisão da Cochrane sobre ansiedade e depressão concluiu que os estudos disponíveis são poucos e de baixa qualidade. Falo de relatos, não de resultado.
O Osatoshi, prática espiritual japonesa da tradição da Shinri, é procurado por quem quer dar um lugar simbólico a essa experiência, principalmente depois de uma perda. Não é tratamento de saúde, não avalia doença, não interfere em nenhum resultado clínico e não promete gravidez a ninguém. Sobre a proteção que muita gente busca quando a gravidez enfim acontece, escrevi em gravidez e proteção espiritual.
O que eu ofereço aqui é acompanhamento durante o processo. Não é pouco para quem está atravessando isso sozinha, e não é mais do que isso.
Sem final feliz garantido, e sem culpa
Não vou terminar prometendo que vai dar certo, porque eu não sei, e porque essa promessa já foi feita a você por gente demais. O que dá para dizer é outra coisa: você não fez nada de errado, seu corpo não está te traindo, e querer muito não é o problema.
Se quiser conversar sobre acolhimento durante esse período, o contato está aberto.
Nesse tempo de espera, cuidar de você não é secundário. É a única parte que ninguém pode fazer no seu lugar.
Quer conversar sobre o seu caso?
Falar comigoPerguntas frequentes
- Quando devo procurar um médico por dificuldade de engravidar?
- A orientação mais usada é procurar avaliação depois de doze meses de tentativas sem sucesso, ou depois de seis meses quando a mulher tem mais de trinta e cinco anos. Havendo ciclos irregulares, endometriose, cirurgias prévias ou perdas gestacionais, vale procurar antes disso, sem esperar prazo.
- É verdade que ansiedade impede a gravidez?
- Não existe base para afirmar isso, e a frase relaxa que vem faz muito mal. Estresse pode afetar o ciclo em alguns casos, o que é diferente de ser a causa da infertilidade. Colocar na mulher a responsabilidade de relaxar transforma um problema de saúde em falha pessoal, e não ajuda ninguém.
- A causa da dificuldade é sempre da mulher?
- Não. O fator masculino participa de uma parcela expressiva dos casos, e existem situações em que a causa não é identificada em nenhum dos dois. Por isso a investigação precisa incluir o parceiro desde o começo. Investigar os dois evita meses perdidos e evita que a mulher carregue sozinha algo que é do casal.
- Terapia integrativa ajuda a engravidar?
- Ninguém pode prometer gravidez, e desconfie de quem promete. As revisões sobre acupuntura em tratamentos de reprodução assistida são inconsistentes e não sustentam essa afirmação. O que práticas como reiki e acupuntura oferecem, e é o que eu ofereço, é acolhimento, alívio de tensão e companhia durante um processo duro.