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Caio GraccoTerapias da Completude
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Osatoshi de bebê abortado: um lugar para essa dor

Uma dor que quase não tem onde ser falada em voz alta. O que a tradição japonesa propõe para gestações que não seguiram, sem julgamento, sem cobrança e sem hierarquia de sofrimento.

Por Caio Gracco7 min de leitura

Há um tipo de perda que a vida cotidiana não sabe receber. Não existe velório, não existe atestado para faltar ao trabalho, não existe gente ligando na semana seguinte para saber como você está. Muitas vezes ninguém sabia da gestação. E aí você voltou para a rotina em poucos dias, com o corpo ainda mudando, com uma ausência do tamanho do mundo, e sem ninguém a quem dizer que perdeu alguém.

Se você chegou aqui, provavelmente é isso que está acontecendo. Antes de qualquer explicação sobre tradição japonesa, sobre método ou sobre procedimento, o que precisa ser dito é mais simples: você não precisa justificar essa dor para ninguém, nem explicar por que ela ainda está aí, nem provar que tem direito a ela. Este texto não vai lhe pedir razões e não vai avaliar nada do que aconteceu.

Uma dor que muita gente não pode nem falar em voz alta

Parte do peso dessa perda não vem da perda em si. Vem do silêncio ao redor dela.

Quem passou por uma perda gestacional espontânea muitas vezes ouve frases que pretendiam consolar e machucam: "acontece com todo mundo", "você é jovem, vai ter outro", "melhor agora do que depois", "era a natureza fazendo o trabalho dela". Cada uma dessas frases informa, sem querer, que aquele luto não é para ser levado a sério.

Quem passou por uma interrupção costuma enfrentar algo ainda mais fechado: a impossibilidade de contar. Não para a família, não para as amigas, às vezes nem para quem estava junto na decisão. Uma dor que não pode ser nomeada não encontra onde se apoiar, e por isso costuma durar mais. Não porque a pessoa seja frágil, mas porque nunca teve espaço para acontecer.

Este texto trata das duas situações do mesmo jeito, com o mesmo cuidado, sem hierarquia. Não existe perda que doa mais e perda que doa menos. Existe gente que perdeu. Sobre o que o silêncio faz com quem sobrevive a uma ausência, escrevi em o luto de quem fica.

E fica dito desde já: aqui não há julgamento, não há cobrança, não há moral e não há lado. Este não é lugar de debate sobre nada. É lugar de olhar para uma dor.

O que a tradição da Shinri propõe

A Shinri é uma tradição espiritual japonesa contemporânea que trabalha com a noção de encaminhamento: ela entende que existem almas que ficaram sem lugar, e que é possível conduzi-las ao que a tradição chama de mundo divino. O nome disso, no vocabulário dela, é salvação, e salvação ali nunca significa afastar, expulsar ou combater. Significa acompanhar. Escrevi sobre essa diferença de postura em salvação de espíritos na tradição japonesa.

No caso das gestações que não seguiram, o que a tradição oferece é isso e apenas isso: um encaminhamento, e um lugar formal para um luto que geralmente não teve nenhum. Não é reparação de erro. Não é correção de nada. Não há nada a ser consertado, porque nada foi quebrado por você.

A lógica é próxima da do Osatoshi de falecido, com uma diferença importante: ali, a tradição orienta aguardar cerca de cinquenta dias após a morte. Aqui não existe essa regra, e muita gente procura anos ou décadas depois. O tempo decorrido não muda a validade do pedido.

A honestidade de sempre: isso é leitura de uma tradição, sem fonte independente, sem estudo e sem comprovação científica de nenhum tipo. Quem faz, faz por sentido, não por prova. E o efeito mais observável de um trabalho desses acontece em quem ficou.

Como é feito, e o que se pede

O trabalho é conduzido à distância. Você não precisa se deslocar, não precisa estar em nenhum estado especial e não precisa fazer nada em horário nenhum.

Sobre os dados: você diz o que conseguir dizer. Uma data aproximada, se lembrar. Um nome, se você tiver dado um. Muita gente deu, em silêncio, e nunca contou a ninguém. Se você não tem nada disso, também está bem. Ninguém vai lhe pedir detalhes clínicos, ninguém vai perguntar as circunstâncias e ninguém vai pedir que você explique nada.

A orientação geral da tradição é uma série de três trabalhos, com pelo menos uma semana de intervalo. Existe também a modalidade com relatório, escrito ou em áudio, para quem quiser receber o que foi percebido. E existe a opção de não receber relatório nenhum, que é a escolha de muita gente e é igualmente legítima.

Um pedido pode ser feito pela própria pessoa ou por um familiar. Quando se trata de alguém vivo e próximo, o mais respeitoso é conversar antes. Esse assunto pertence a quem o viveu.

A culpa, quando ela aparece

Nem todo mundo sente culpa, e quem não sente não deve nada a ninguém.

Mas quando ela aparece, costuma vir com um roteiro insistente: o "e se eu tivesse feito diferente", o "e se eu tivesse ido ao médico antes", o "e se as condições fossem outras", o "e se eu tivesse tido mais tempo para decidir". A culpa tem essa característica cruel de reescrever o passado com informação que você não tinha na hora, e de exigir de você, retroativamente, uma serenidade que ninguém tem no meio de uma situação difícil.

O que se pode dizer com alguma firmeza: no caso das perdas espontâneas, a esmagadora maioria acontece por razões que estavam completamente fora do alcance de qualquer pessoa. Nenhuma escolha sua, nenhum esforço físico, nenhum pensamento seu causou aquilo. E no caso de uma interrupção, o que houve foi uma pessoa decidindo dentro das condições concretas que tinha, e é assim que decisões humanas acontecem: com informação incompleta, com o que se tem, na vida que se está vivendo.

A culpa costuma ser a forma como o afeto se manifesta quando não encontra outro caminho. Ela não é prova de que você fez algo errado.

Se você está procurando isso muito tempo depois

Isso é comum, e não é sinal de nada errado.

Há mulheres que passaram trinta anos sem falar sobre uma gestação que não seguiu, e que só encontraram o assunto de volta quando uma filha engravidou, quando a mãe morreu, quando a menopausa chegou, quando um aniversário caiu numa data que só elas sabiam o que significava. O luto guardado não envelhece. Ele espera.

Quando ele finalmente sai, costuma sair inteiro e desproporcional, e a pessoa se assusta com a própria intensidade. Não é regressão nem recaída. É uma coisa que estava trancada há décadas encontrando a porta.

Se é esse o seu caso, você não está atrasada. Não existe prazo.

O que fica

Não vou terminar este texto oferecendo nada.

O que eu queria que ficasse é isto: existiu uma gestação, existiu alguém que sentiu, e o fim daquilo foi uma perda, independentemente de como aconteceu, de quanto tempo durou, de quem soube e de quem não soube. Você tem direito ao luto que está sentindo, no tamanho em que ele veio, pelo tempo que ele precisar.

E se ninguém disse isso para você até agora, fica dito aqui.

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Perguntas frequentes

O que é o Osatoshi de bebê abortado?
É um trabalho da tradição espiritual japonesa da Shinri voltado ao encaminhamento de bebês de gestações que não seguiram, tanto perdas espontâneas quanto interrupções. É prática espiritual, feita à distância, sem comprovação científica, e existe para dar lugar a um luto, não para corrigir nada.
Preciso contar os detalhes do que aconteceu?
Não. Você diz o que conseguir dizer, e só. Ninguém vai lhe pedir justificativa, explicação ou razões. Data aproximada e o que você quiser compartilhar bastam, e mesmo isso é opcional.
Posso pedir por outra pessoa da família?
A tradição prevê que o pedido possa ser feito pela própria pessoa ou por familiares. Ainda assim, quando se trata de alguém vivo e próximo, o mais cuidadoso é conversar antes com ela. Esse assunto pertence a quem viveu.
Faz diferença quanto tempo passou?
Não. Muita gente procura décadas depois, porque nunca teve onde falar sobre isso. O tempo decorrido não torna a dor menos legítima nem o pedido menos válido.
Isso substitui acompanhamento psicológico?
Em hipótese nenhuma. Luto perinatal tem acompanhamento psicológico específico e existem grupos de apoio dedicados ao tema. Procurar esse cuidado é uma das coisas mais úteis que se pode fazer, e não diminui ninguém.

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