Se você é do Brasil, provavelmente ouviu falar de espíritos primeiro em vocabulário espírita. Aí aparece uma prática japonesa que também fala de espíritos presos, de ancestrais, de socorro e de reparação, e a pergunta é inevitável: isso é a mesma coisa com outro nome?
Não é. As duas tradições têm origens distintas, vocabulários distintos, formas de organização distintas e maneiras diferentes de conduzir o trabalho. Elas se parecem em alguns pontos porque ambas partem da ideia de que existe continuidade depois da morte e de que quem ficou pode ser socorrido. A partir daí, os caminhos se separam. Este texto compara as duas com o respeito que ambas merecem, e sem responder à pergunta que sempre aparece no fim, que é qual delas é melhor. Não é a minha pergunta e não deveria ser a de nenhum terapeuta.
De onde vem cada uma
O espiritismo tem uma história bem documentada. Nasceu na França do século XIX, a partir da obra de Allan Kardec, pseudônimo de Hippolyte Léon Denizard Rivail, e se organizou em torno de um conjunto de livros de referência. Chegou ao Brasil ainda no século XIX e aqui encontrou um enraizamento que não teve em nenhum outro lugar do mundo, com federações, centros, hospitais e uma produção editorial imensa. É possível estudar sua história em fontes independentes, ler análise acadêmica sobre ela e conferir datas.
A Shinri é outra escala e outra idade. Segundo a própria associação, ela foi desenvolvida por Masao Utsumi, nascido em 1943 em Maebashi, na província de Gunma, a partir de meados da década de 1980, e se formalizou como associação em 2006. No Brasil, o trabalho começou no início da década de 2010. A palavra Shinri é traduzida pela tradição como algo próximo de verdade ou lei divina.
E aqui vem uma diferença que não é doutrinária e sim de verificabilidade, que eu faço questão de escrever: não existe fonte independente sobre a Shinri. Não há verbete de enciclopédia, artigo acadêmico nem cobertura jornalística sobre ela ou sobre seu fundador. Tudo o que se sabe é o que a própria organização conta sobre si. Isso não a torna falsa, mas coloca você em outra posição de leitura, e você merece saber disso antes de decidir qualquer coisa. A apresentação completa está em Shinri: o que é a associação.
O que as duas dizem sobre espíritos presos
Aqui está a semelhança que mais confunde, e ela é real.
O espiritismo trabalha com a ideia de obsessão: um espírito que se liga a uma pessoa encarnada, em geral por vínculo antigo, mágoa ou dependência mútua. E trabalha com a desobsessão, que na doutrina não é expulsão nem combate, e sim esclarecimento. O espírito é acolhido, orientado por trabalhadores da reunião e encaminhado. Existe também a noção de que o encarnado tem responsabilidade sobre a própria sintonia.
A Shinri descreve algo estruturalmente parecido no propósito. Espíritos que ficaram presos, sofrendo ou movidos por rancor, se ligam a pessoas, famílias, animais e lugares. O que a tradição chama de salvação é conduzir esse espírito à reparação dos próprios atos e encaminhá-lo ao que ela chama de mundo divino. Também não é exorcismo, também não é combate e também não há um culpado.
As duas tradições, portanto, recusam a lógica de expulsão. Isso é um ponto de contato notável entre coisas que nasceram em continentes e séculos diferentes. O tema em si está desenvolvido em salvação de espíritos na tradição japonesa.
Vocabulário: palavras parecidas, sentidos diferentes
É fácil traduzir uma tradição pela outra e errar. Alguns exemplos.
Carma, no espiritismo, aparece dentro de um sistema de causa e efeito ligado a vidas sucessivas e a provas escolhidas antes de encarnar. Na Shinri, a palavra aparece com um sentido mais próximo de herança que chegou já formada, ligada à linhagem. O assunto tem uma leitura mais larga em o que é carma, afinal.
Ancestral, no vocabulário espírita, não ocupa lugar central. Na tradição japonesa, ocupa. A Shinri sustenta que cerca de cem antepassados protegem cada pessoa e organiza modalidades inteiras em torno do ramo paterno e do ramo materno, com pedido separado para cada família. Quem tem vários sobrenomes precisa de um pedido para cada linhagem. Isso não tem correspondente direto do outro lado.
Egrégora é outro termo que circula nos dois campos com contornos próprios, e que a tradição japonesa trata como objeto de trabalho específico. Convém não assumir que a palavra significa a mesma coisa em toda parte.
Como cada uma organiza o atendimento
Esta é a diferença mais concreta e a que mais importa na prática.
O trabalho espírita, no formato mais tradicional, acontece em centro, em reunião, com equipe de trabalhadores, médiuns e dirigente, e a doutrina sustenta a gratuidade da prática mediúnica. Você não paga por uma desobsessão. Você comparece, participa e a estrutura é coletiva e voluntária.
O Osatoshi é conduzido individualmente, à distância, por terapeuta formado na tradição, mediante uma contribuição que a associação chama de kisha e apresenta como agradecimento. Não existe reunião, não existe incorporação, não existe psicografia. Existe um pedido com dados definidos, um trabalho conduzido pelo terapeuta e uma devolutiva. A série é de três, com pelo menos uma semana de intervalo.
Essa diferença de estrutura é a que gera as perguntas mais legítimas. Uma prática coletiva e gratuita tem controle social embutido: muita gente presente, ninguém lucra. Uma prática individual e paga depende inteiramente da ética de quem conduz. Por isso acho saudável que você aplique a qualquer terapeuta os mesmos critérios de transparência, inclusive a mim.
É preciso escolher entre as duas?
Não, e a pergunta costuma vir carregada de um medo que vale nomear: o de estar traindo alguma coisa.
O Osatoshi não pede conversão, não pede filiação e não pede que você abandone caminho nenhum. Quem frequenta centro espírita, quem vai à missa, quem é de terreiro, quem é de outra fé e quem não tem religião nenhuma chega igual. Sobre esse último caso escrevi um texto inteiro em Osatoshi para quem não tem religião.
O que eu não faço, e considero grave quando vejo, é dizer a alguém que a prática espiritual da qual ela vem é inferior, perigosa ou responsável pelo que ela está sofrendo. Terapeuta que faz isso está usando a fé de uma pessoa como argumento de venda.
O que sobra de útil nessa comparação
Duas coisas, e elas valem para além do Osatoshi.
A primeira é que semelhança de vocabulário não é semelhança de conteúdo. Duas tradições podem usar a palavra espírito e estar falando de mundos diferentes. Traduzir uma pela outra é confortável e leva a mal-entendido.
A segunda é que a estrutura importa tanto quanto a doutrina. Como o trabalho é organizado, quem responde por ele, o que se cobra e como se encerra dizem mais sobre a experiência que você vai ter do que qualquer explicação metafísica.
O formato dos meus atendimentos está em Osatoshi, e a conversa específica pode ir pelo contato. Duas tradições que dizem a mesma coisa sobre socorro e coisas diferentes sobre quase todo o resto merecem, cada uma, ser lida no próprio idioma.
Quer conversar sobre o seu caso?
Falar comigoPerguntas frequentes
- Osatoshi é espiritismo?
- Não. São tradições distintas, com origens, vocabulário e organização diferentes. O espiritismo é uma doutrina de origem francesa do século XIX, com forte enraizamento no Brasil. O Osatoshi vem da Shinri, associação japonesa contemporânea. As duas falam de espíritos, o que gera a confusão, mas não compartilham base doutrinária.
- Preciso deixar de ser espírita para fazer Osatoshi?
- Não. A prática não exige filiação, conversão nem abandono de qualquer caminho anterior. Quem procura vem de origens religiosas muito variadas, e há quem não tenha religião nenhuma.
- Osatoshi é a mesma coisa que desobsessão?
- São coisas parecidas no propósito declarado e diferentes na forma. As duas descrevem um trabalho de socorro a espíritos, não de expulsão. Mas a desobsessão acontece em reunião do centro espírita, dentro de uma prática coletiva e gratuita, e o Osatoshi é conduzido individualmente por um terapeuta formado na tradição.
- Qual das duas é melhor?
- Não é uma pergunta que este texto responda, e desconfie de quem responde. São caminhos diferentes, com histórias diferentes e critérios internos próprios. O que se pode comparar é o formato, o custo, a organização e o que cada um diz sobre si mesmo.
- Osatoshi tem médium?
- A tradição da Shinri não organiza o trabalho em torno de comunicação mediúnica com espíritos, como acontece em reuniões de desobsessão. O trabalho é conduzido pelo terapeuta segundo o método da associação, sem incorporação e sem psicografia.