Você começou um tratamento, está tomando medicação e quer fazer acupuntura, reiki ou shiatsu. E trava na dúvida: será que atrapalha? Será que o médico vai achar ruim? Preciso contar? E se o terapeuta disser que o remédio está bloqueando o efeito da sessão?
A resposta curta é esta: terapia integrativa é para andar junto, nunca no lugar. Você mantém tudo o que está em curso, conta ao seu médico o que pretende fazer, conta ao terapeuta o que você tem e o que toma, e não interrompe, reduz nem espaça nada por conta própria, nem por sugestão de quem não é médico. Se algum terapeuta sugerir o contrário, esse é o momento de se afastar. O texto abaixo detalha cada uma dessas frases, mostra o que a política pública brasileira reconhece e o que ela não reconhece, e diz com clareza o que esperar e o que não esperar.
O que "complementar" quer dizer, e por que não é "alternativo"
As duas palavras costumam aparecer juntas e significam coisas opostas.
Complementar é o que acompanha. Você segue com o seu tratamento, com o seu médico, com os seus exames. Ao lado disso, faz algo que cuida de outra coisa: tensão, sono, dor associada à rigidez, cansaço, o estado geral de quem está atravessando um período difícil. Nada sai do lugar. Só se acrescenta.
Alternativa é o que se propõe a substituir. É a proposta de trocar um tratamento com respaldo por outro caminho. É onde as histórias mais tristes dessa área acontecem, e não por acaso: quem troca o que funciona pelo que não tem como sustentar aquele papel perde tempo, e tempo em algumas doenças não volta.
A palavra que o Brasil adotou oficialmente carrega essa distinção: a política do Ministério da Saúde se chama Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares. Não alternativas. A escolha da palavra é deliberada.
O que é a PNPIC e quais das oito práticas estão nela
A PNPIC foi criada em 2006, com a acupuntura entre as primeiras práticas reconhecidas, e foi ampliada em 2017 e por portaria de 2018, chegando a dezenas de práticas ofertadas no SUS.
A lista oficial das práticas ofertadas no SUS tem 29 itens, e estar nela significa que o Estado brasileiro reconhece aquela prática como oferta possível de cuidado complementar na rede pública. Não significa que a eficácia esteja comprovada. São duas coisas diferentes e vale repetir: reconhecimento em política pública não é o mesmo que comprovação de eficácia. Quem confunde as duas coisas usa a sigla como selo de qualidade, e não é isso que ela é.
Das oito práticas que eu atendo, quatro constam da política e quatro não constam. Segue a tabela sem maquiagem.
| Prática | PNPIC | O que dá para dizer com honestidade |
|---|---|---|
| Acupuntura sistêmica | Sim, desde 2006 | A mais respaldada das oito. A revisão Cochrane de Linde e colaboradores (CD001218) indica certeza moderada de benefício na prevenção de enxaqueca, com pelo menos seis sessões. |
| Auriculoterapia | Sim, dentro da Medicina Tradicional Chinesa | O Ministério da Saúde mantém formação nacional para a Atenção Primária. Ainda assim, a evidência de eficácia é fraca, e reconhecimento público não é comprovação. |
| Reiki | Sim, desde 2017 | Evidência insuficiente. A revisão Cochrane de 2015 sobre depressão e ansiedade concluiu que os estudos são poucos e de baixa qualidade. O que existe são relatos de descanso. |
| Shiatsu | Não nominalmente. O que está na política é a medicina tradicional chinesa | Evidência fraca, com relatos consistentes de relaxamento e alívio de tensão muscular. |
| Seitai | Não | Prática manual japonesa, praticamente sem literatura científica. Falo dela como tradição e experiência. |
| Elementoterapia Magnética | Não | A meta-análise de Pittler e colaboradores (CMAJ, 2007) conclui que a evidência não apoia ímãs estáticos para dor. Experiência simbólica, nunca efeito clínico. |
| EMF Balancing Technique® | Não | Marca registrada de organização privada, sem nenhum ensaio clínico. Apresento exclusivamente como experiência e sentido. |
| Osatoshi | Não se aplica | Não é prática de saúde. É caminho espiritual da tradição japonesa da Shinri, e nunca deve ser oferecido como tratamento de doença. |
Um esclarecimento que evita confusão frequente: PICMAG não é categoria do Ministério da Saúde. É sigla de associação privada, e nenhuma prática magnética consta da PNPIC. Se você vir a sigla usada como chancela pública, desconfie do resto.
Por que nenhum tratamento em curso deve ser interrompido
Não é excesso de cautela nem formalidade jurídica. As razões são concretas.
Muitos tratamentos dependem de continuidade para funcionar: antidepressivos, anticonvulsivantes, medicações para pressão, tireoide, diabetes e uma lista longa de outros. Interromper ou espaçar por conta própria pode causar efeito de retirada, retorno do quadro ou piora, e a piora nem sempre aparece no dia seguinte.
Há também um problema de leitura. Se você para o remédio e começa a terapia ao mesmo tempo, ninguém consegue saber depois o que causou o quê.
E existe uma armadilha específica: sentir-se melhor não é prova de que o tratamento pode sair. Melhorar durante um tratamento costuma ser sinal de que ele está funcionando. A decisão de reduzir, trocar ou suspender é do médico que acompanha, com o seu quadro na frente.
O que contar ao médico e o que contar ao terapeuta
Os dois precisam de informação, e cada um precisa de um recorte diferente.
Ao médico, conte:
- Quais práticas você faz ou pretende fazer, com o nome delas.
- Com que frequência, e desde quando.
- O que mudou desde que começou: sono, dor, ansiedade, disposição, apetite.
- Qualquer sintoma novo que tenha aparecido, mesmo que pareça sem relação.
- Se alguém sugeriu que você mudasse alguma coisa do tratamento. Isso é informação clínica relevante.
Ao terapeuta, conte:
- Diagnósticos em curso e tratamentos que você faz.
- Todas as medicações, incluindo as que você considera irrelevantes.
- Cirurgias, próteses, marca-passo, gestação, tratamento oncológico em andamento.
- Alterações de coagulação ou uso de anticoagulante, e problemas de pele, se for fazer prática de toque ou agulha.
- O que você já tentou e o que não funcionou.
Um terapeuta que não pergunta nada disso antes de começar está trabalhando no escuro. A anamnese não é burocracia: ela existe para decidir se aquela prática é adequada para você naquele momento, e para saber quando o caso é de encaminhar em vez de atender. Se ficar em dúvida sobre por onde começar entre as oito, qual das oito práticas é para o seu caso compara todas elas.
O sinal de alerta: quando o terapeuta sugere abandonar o tratamento
Este é o parágrafo mais importante do texto.
Se um terapeuta sugerir que você pare, reduza ou espace a sua medicação; se disser que o remédio bloqueia a energia, atrapalha o trabalho ou impede o efeito da sessão; se afirmar que a doença é só emocional e que o tratamento é desnecessário; se desestimular exame, cirurgia ou consulta; se prometer cura, resultado garantido ou disser que resolve em uma sessão, encerre o atendimento e não volte. Não é uma abordagem diferente. É risco.
Terapeuta não prescreve, não suspende e não ajusta medicação. Terapeuta também não diagnostica: diagnóstico é ato privativo de profissional de saúde habilitado. Quem trabalha com práticas integrativas e entende o próprio ofício sabe onde ele termina, e encaminhar faz parte do trabalho, não é confissão de fracasso.
Há outros sinais que merecem a mesma reação: pacote fechado vendido antes da primeira conversa, promessa de resultado, insistência quando você diz não e uso de doença grave como argumento de venda.
O que esperar e o que não esperar
Do lado do que é razoável esperar: sessões que respeitam o seu tempo, perguntas sobre o seu quadro antes de qualquer coisa, explicação clara do que vai ser feito, e efeitos que costumam ser modestos e cumulativos: mais descanso, menos tensão no corpo, sono um pouco melhor, uma sensação de ter um espaço no meio da semana em que você não precisa dar conta de nada.
Para a acupuntura sistêmica existe uma expectativa melhor sustentada, e ainda assim com condições: na prevenção de enxaqueca, a evidência da revisão Cochrane citada acima fala em pelo menos seis sessões, ou seja, não é para avaliar depois de uma. O reiki está na política nacional desde 2017 e o shiatsu não entrou nela, com evidência insuficiente no primeiro caso e fraca no segundo. O que sustenta a oferta dos dois é relato de relaxamento e descanso, não promessa de efeito clínico. Se quiser ver essa mesma conversa aplicada a um quadro específico, acupuntura para ansiedade trata do assunto com o mesmo cuidado, e reiki no SUS explica como uma prática entra na rede pública sem que isso signifique comprovação.
Do lado do que não se deve esperar: cura, substituição de tratamento, diagnóstico, resultado garantido, prazo fixo, efeito sobre doença grave. Se você já chega com essa expectativa, converse sobre ela antes de começar. Expectativa desalinhada é o que mais frustra nessa área.
O acordo que faz as duas coisas conviverem
O arranjo que funciona é simples de descrever: o médico cuida do tratamento e é quem decide sobre ele; o terapeuta cuida do que lhe cabe e não opina sobre conduta clínica; e você, no meio, mantém os dois informados.
Quando esse acordo é respeitado, não há conflito entre as duas coisas. Há uma pessoa sendo cuidada em mais de uma frente. Quando ele é rompido, é quase sempre do lado de cá, por alguém que se excedeu.
Cuidado complementar bem-feito não pede que você escolha um lado. Ele só se acrescenta ao que já está sustentando você.
Quer conversar sobre o seu caso?
Falar comigoPerguntas frequentes
- Posso fazer terapia integrativa enquanto faço tratamento médico?
- Em geral sim, desde que a terapia seja complementar e não substitua nada do que está em curso. Avise o seu médico sobre o que pretende fazer e avise o terapeuta sobre o seu quadro e as suas medicações. Nenhum tratamento prescrito deve ser interrompido, reduzido ou espaçado por causa de uma sessão.
- Qual a diferença entre terapia complementar e alternativa?
- Complementar é o que acompanha o tratamento de saúde, somando cuidado sem tomar o lugar de nada. Alternativa é o que se propõe a substituir. A primeira é uma prática legítima de cuidado; a segunda é perigosa, porque troca um tratamento com respaldo por algo que não tem como sustentar o mesmo papel.
- O que é a PNPIC do Ministério da Saúde?
- É a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares, criada em 2006 e ampliada em 2017 e 2018. Ela reconhece um conjunto de práticas para oferta no SUS como complemento ao cuidado. Estar na PNPIC significa reconhecimento em política pública de saúde, e isso não é o mesmo que comprovação de eficácia.
- Preciso contar ao meu médico que faço acupuntura ou reiki?
- Sim, e não é formalidade. O médico precisa saber tudo o que você faz para interpretar corretamente a sua evolução, e mudanças em sintomas de dor, sono ou ansiedade podem influenciar decisões de conduta. Omitir dificulta o trabalho dele e não protege você de nada.
- Um terapeuta pode pedir para eu parar meu remédio?
- Não. Terapeuta não prescreve, não suspende e não ajusta medicação. Isso é ato de profissional de saúde habilitado e, no caso da prescrição, do médico. Se alguém sugerir que você largue ou reduza um tratamento, encerre o atendimento e não volte. Esse é o sinal de alerta mais claro que existe nessa área.