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Caio GraccoTerapias da Completude
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Terapia integrativa junto com tratamento médico: como convivem

Complementar não é sinônimo de alternativo. O que a PNPIC reconhece, o que ela não reconhece, o que contar ao médico e por que nenhum tratamento em curso deve ser interrompido.

Por Caio Gracco9 min de leitura

Você começou um tratamento, está tomando medicação e quer fazer acupuntura, reiki ou shiatsu. E trava na dúvida: será que atrapalha? Será que o médico vai achar ruim? Preciso contar? E se o terapeuta disser que o remédio está bloqueando o efeito da sessão?

A resposta curta é esta: terapia integrativa é para andar junto, nunca no lugar. Você mantém tudo o que está em curso, conta ao seu médico o que pretende fazer, conta ao terapeuta o que você tem e o que toma, e não interrompe, reduz nem espaça nada por conta própria, nem por sugestão de quem não é médico. Se algum terapeuta sugerir o contrário, esse é o momento de se afastar. O texto abaixo detalha cada uma dessas frases, mostra o que a política pública brasileira reconhece e o que ela não reconhece, e diz com clareza o que esperar e o que não esperar.

O que "complementar" quer dizer, e por que não é "alternativo"

As duas palavras costumam aparecer juntas e significam coisas opostas.

Complementar é o que acompanha. Você segue com o seu tratamento, com o seu médico, com os seus exames. Ao lado disso, faz algo que cuida de outra coisa: tensão, sono, dor associada à rigidez, cansaço, o estado geral de quem está atravessando um período difícil. Nada sai do lugar. Só se acrescenta.

Alternativa é o que se propõe a substituir. É a proposta de trocar um tratamento com respaldo por outro caminho. É onde as histórias mais tristes dessa área acontecem, e não por acaso: quem troca o que funciona pelo que não tem como sustentar aquele papel perde tempo, e tempo em algumas doenças não volta.

A palavra que o Brasil adotou oficialmente carrega essa distinção: a política do Ministério da Saúde se chama Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares. Não alternativas. A escolha da palavra é deliberada.

O que é a PNPIC e quais das oito práticas estão nela

A PNPIC foi criada em 2006, com a acupuntura entre as primeiras práticas reconhecidas, e foi ampliada em 2017 e por portaria de 2018, chegando a dezenas de práticas ofertadas no SUS.

A lista oficial das práticas ofertadas no SUS tem 29 itens, e estar nela significa que o Estado brasileiro reconhece aquela prática como oferta possível de cuidado complementar na rede pública. Não significa que a eficácia esteja comprovada. São duas coisas diferentes e vale repetir: reconhecimento em política pública não é o mesmo que comprovação de eficácia. Quem confunde as duas coisas usa a sigla como selo de qualidade, e não é isso que ela é.

Das oito práticas que eu atendo, quatro constam da política e quatro não constam. Segue a tabela sem maquiagem.

PráticaPNPICO que dá para dizer com honestidade
Acupuntura sistêmicaSim, desde 2006A mais respaldada das oito. A revisão Cochrane de Linde e colaboradores (CD001218) indica certeza moderada de benefício na prevenção de enxaqueca, com pelo menos seis sessões.
AuriculoterapiaSim, dentro da Medicina Tradicional ChinesaO Ministério da Saúde mantém formação nacional para a Atenção Primária. Ainda assim, a evidência de eficácia é fraca, e reconhecimento público não é comprovação.
ReikiSim, desde 2017Evidência insuficiente. A revisão Cochrane de 2015 sobre depressão e ansiedade concluiu que os estudos são poucos e de baixa qualidade. O que existe são relatos de descanso.
ShiatsuNão nominalmente. O que está na política é a medicina tradicional chinesaEvidência fraca, com relatos consistentes de relaxamento e alívio de tensão muscular.
SeitaiNãoPrática manual japonesa, praticamente sem literatura científica. Falo dela como tradição e experiência.
Elementoterapia MagnéticaNãoA meta-análise de Pittler e colaboradores (CMAJ, 2007) conclui que a evidência não apoia ímãs estáticos para dor. Experiência simbólica, nunca efeito clínico.
EMF Balancing Technique®NãoMarca registrada de organização privada, sem nenhum ensaio clínico. Apresento exclusivamente como experiência e sentido.
OsatoshiNão se aplicaNão é prática de saúde. É caminho espiritual da tradição japonesa da Shinri, e nunca deve ser oferecido como tratamento de doença.

Um esclarecimento que evita confusão frequente: PICMAG não é categoria do Ministério da Saúde. É sigla de associação privada, e nenhuma prática magnética consta da PNPIC. Se você vir a sigla usada como chancela pública, desconfie do resto.

Por que nenhum tratamento em curso deve ser interrompido

Não é excesso de cautela nem formalidade jurídica. As razões são concretas.

Muitos tratamentos dependem de continuidade para funcionar: antidepressivos, anticonvulsivantes, medicações para pressão, tireoide, diabetes e uma lista longa de outros. Interromper ou espaçar por conta própria pode causar efeito de retirada, retorno do quadro ou piora, e a piora nem sempre aparece no dia seguinte.

Há também um problema de leitura. Se você para o remédio e começa a terapia ao mesmo tempo, ninguém consegue saber depois o que causou o quê.

E existe uma armadilha específica: sentir-se melhor não é prova de que o tratamento pode sair. Melhorar durante um tratamento costuma ser sinal de que ele está funcionando. A decisão de reduzir, trocar ou suspender é do médico que acompanha, com o seu quadro na frente.

O que contar ao médico e o que contar ao terapeuta

Os dois precisam de informação, e cada um precisa de um recorte diferente.

Ao médico, conte:

  • Quais práticas você faz ou pretende fazer, com o nome delas.
  • Com que frequência, e desde quando.
  • O que mudou desde que começou: sono, dor, ansiedade, disposição, apetite.
  • Qualquer sintoma novo que tenha aparecido, mesmo que pareça sem relação.
  • Se alguém sugeriu que você mudasse alguma coisa do tratamento. Isso é informação clínica relevante.

Ao terapeuta, conte:

  • Diagnósticos em curso e tratamentos que você faz.
  • Todas as medicações, incluindo as que você considera irrelevantes.
  • Cirurgias, próteses, marca-passo, gestação, tratamento oncológico em andamento.
  • Alterações de coagulação ou uso de anticoagulante, e problemas de pele, se for fazer prática de toque ou agulha.
  • O que você já tentou e o que não funcionou.

Um terapeuta que não pergunta nada disso antes de começar está trabalhando no escuro. A anamnese não é burocracia: ela existe para decidir se aquela prática é adequada para você naquele momento, e para saber quando o caso é de encaminhar em vez de atender. Se ficar em dúvida sobre por onde começar entre as oito, qual das oito práticas é para o seu caso compara todas elas.

O sinal de alerta: quando o terapeuta sugere abandonar o tratamento

Este é o parágrafo mais importante do texto.

Se um terapeuta sugerir que você pare, reduza ou espace a sua medicação; se disser que o remédio bloqueia a energia, atrapalha o trabalho ou impede o efeito da sessão; se afirmar que a doença é só emocional e que o tratamento é desnecessário; se desestimular exame, cirurgia ou consulta; se prometer cura, resultado garantido ou disser que resolve em uma sessão, encerre o atendimento e não volte. Não é uma abordagem diferente. É risco.

Terapeuta não prescreve, não suspende e não ajusta medicação. Terapeuta também não diagnostica: diagnóstico é ato privativo de profissional de saúde habilitado. Quem trabalha com práticas integrativas e entende o próprio ofício sabe onde ele termina, e encaminhar faz parte do trabalho, não é confissão de fracasso.

outros sinais que merecem a mesma reação: pacote fechado vendido antes da primeira conversa, promessa de resultado, insistência quando você diz não e uso de doença grave como argumento de venda.

O que esperar e o que não esperar

Do lado do que é razoável esperar: sessões que respeitam o seu tempo, perguntas sobre o seu quadro antes de qualquer coisa, explicação clara do que vai ser feito, e efeitos que costumam ser modestos e cumulativos: mais descanso, menos tensão no corpo, sono um pouco melhor, uma sensação de ter um espaço no meio da semana em que você não precisa dar conta de nada.

Para a acupuntura sistêmica existe uma expectativa melhor sustentada, e ainda assim com condições: na prevenção de enxaqueca, a evidência da revisão Cochrane citada acima fala em pelo menos seis sessões, ou seja, não é para avaliar depois de uma. O reiki está na política nacional desde 2017 e o shiatsu não entrou nela, com evidência insuficiente no primeiro caso e fraca no segundo. O que sustenta a oferta dos dois é relato de relaxamento e descanso, não promessa de efeito clínico. Se quiser ver essa mesma conversa aplicada a um quadro específico, acupuntura para ansiedade trata do assunto com o mesmo cuidado, e reiki no SUS explica como uma prática entra na rede pública sem que isso signifique comprovação.

Do lado do que não se deve esperar: cura, substituição de tratamento, diagnóstico, resultado garantido, prazo fixo, efeito sobre doença grave. Se você já chega com essa expectativa, converse sobre ela antes de começar. Expectativa desalinhada é o que mais frustra nessa área.

O acordo que faz as duas coisas conviverem

O arranjo que funciona é simples de descrever: o médico cuida do tratamento e é quem decide sobre ele; o terapeuta cuida do que lhe cabe e não opina sobre conduta clínica; e você, no meio, mantém os dois informados.

Quando esse acordo é respeitado, não há conflito entre as duas coisas. Há uma pessoa sendo cuidada em mais de uma frente. Quando ele é rompido, é quase sempre do lado de cá, por alguém que se excedeu.

Cuidado complementar bem-feito não pede que você escolha um lado. Ele só se acrescenta ao que já está sustentando você.

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Perguntas frequentes

Posso fazer terapia integrativa enquanto faço tratamento médico?
Em geral sim, desde que a terapia seja complementar e não substitua nada do que está em curso. Avise o seu médico sobre o que pretende fazer e avise o terapeuta sobre o seu quadro e as suas medicações. Nenhum tratamento prescrito deve ser interrompido, reduzido ou espaçado por causa de uma sessão.
Qual a diferença entre terapia complementar e alternativa?
Complementar é o que acompanha o tratamento de saúde, somando cuidado sem tomar o lugar de nada. Alternativa é o que se propõe a substituir. A primeira é uma prática legítima de cuidado; a segunda é perigosa, porque troca um tratamento com respaldo por algo que não tem como sustentar o mesmo papel.
O que é a PNPIC do Ministério da Saúde?
É a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares, criada em 2006 e ampliada em 2017 e 2018. Ela reconhece um conjunto de práticas para oferta no SUS como complemento ao cuidado. Estar na PNPIC significa reconhecimento em política pública de saúde, e isso não é o mesmo que comprovação de eficácia.
Preciso contar ao meu médico que faço acupuntura ou reiki?
Sim, e não é formalidade. O médico precisa saber tudo o que você faz para interpretar corretamente a sua evolução, e mudanças em sintomas de dor, sono ou ansiedade podem influenciar decisões de conduta. Omitir dificulta o trabalho dele e não protege você de nada.
Um terapeuta pode pedir para eu parar meu remédio?
Não. Terapeuta não prescreve, não suspende e não ajusta medicação. Isso é ato de profissional de saúde habilitado e, no caso da prescrição, do médico. Se alguém sugerir que você largue ou reduza um tratamento, encerre o atendimento e não volte. Esse é o sinal de alerta mais claro que existe nessa área.

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