A pergunta chega quase sempre em tom de confissão, como se fosse traição de algum tipo: "eu faço terapia com psicóloga, posso fazer Osatoshi também?" Pode. É o arranjo mais comum entre as pessoas que atendo, e não existe conflito nenhum entre as duas coisas, porque elas não estão disputando o mesmo lugar.
A segunda parte da resposta é mais dura e precisa vir junto: o Osatoshi não substitui psicoterapia, em nenhuma circunstância. Ele é prática espiritual, sem comprovação científica, e não trata transtorno mental nem sofrimento psíquico. Psicoterapia é atendimento de saúde, conduzido por profissional habilitado, com formação regulada e conselho profissional que responde por ela. São coisas de naturezas diferentes, e quem oferece uma no lugar da outra está prometendo o que não tem.
O que cada uma faz, sem inflar nenhuma das duas
A psicoterapia trabalha com a sua história, com o que você pensa, sente e faz, e com o modo como isso se organiza. Ela tem método, tem literatura, tem pesquisa por trás e tem quem responda profissionalmente pelo que acontece na sala. Quando o assunto é ansiedade, depressão, luto complicado, pânico, trauma ou relação que adoece, é ali que o trabalho acontece.
O Osatoshi trabalha aquilo que a tradição da Shinri chama de carma e de vínculos espirituais: linhagem, ancestrais, espíritos ligados a uma pessoa, a uma casa, a um animal. Ele não olha para sintoma, não interpreta comportamento e não faz leitura psicológica de nada. A explicação completa está em o que é o Osatoshi.
Repare que a diferença não é de profundidade e sim de objeto. Não existe uma "camada mais funda" que a psicologia não alcançaria e que a prática espiritual alcançaria. Essa frase circula muito e é uma forma polida de desqualificar o trabalho clínico.
Por que as duas costumam conviver bem
Na prática do atendimento, o que acontece com mais frequência é isto: a pessoa está em psicoterapia há um tempo, entendeu bastante coisa, e continua com a sensação de que existe um assunto de família que ninguém nunca nomeou. Ela procura a prática espiritual não no lugar da psicóloga, mas ao lado.
Também acontece o inverso. Alguém chega ao trabalho espiritual falando de repetição, de padrão que não cede, e no meio da conversa fica evidente que o que está em jogo é sofrimento psíquico. Aí o meu trabalho é dizer isso e encaminhar. Encaminhar não é recusar atendimento: é fazer o serviço direito.
Os dois processos convivem melhor quando cada um fica no seu tamanho. A psicoterapia não precisa se pronunciar sobre ancestrais, e a prática espiritual não deve opinar sobre medicação, diagnóstico ou conduta clínica. Sobre a combinação de práticas com tratamento em curso, escrevi em terapia integrativa junto com tratamento médico.
Contar ao psicólogo: por que costuma ajudar
Você não é obrigada a contar nada a ninguém. Mas vale pensar no que se ganha contando.
Psicoterapia trabalha com o que você traz. Se você está vivendo alguma coisa relevante em outro espaço, e essa coisa mexe com você, ela é material. Sonhos depois de um trabalho, lembranças de família que voltaram, uma conversa difícil que aconteceu logo depois: tudo isso é assunto de sessão.
Existe o medo do julgamento, e ele não é infundado. Alguns profissionais reagem mal, outros reagem com curiosidade, e a maioria simplesmente trabalha com o que você trouxer. Se você tem medo de ser julgada por isso, essa hesitação já é uma boa pergunta para a sessão: por que eu preciso esconder isso dela?
Do meu lado, o combinado é o mesmo: se você faz psicoterapia, eu quero saber. Não para conversar com a sua psicóloga, o que não faz parte do meu trabalho, mas para não atravessar um processo que já está em curso.
O sinal de alerta que não admite discussão
Existe uma conduta que encerra qualquer conversa, e ela precisa estar escrita com todas as letras.
Se um terapeuta, de qualquer prática, sugerir que você interrompa a psicoterapia, diminua a medicação, adie uma consulta ou abandone um tratamento, encerre o atendimento com essa pessoa. Não peça explicação, não dê segunda chance, não relativize. Ninguém que não seja o profissional que acompanha você tem competência ou autoridade para orientar isso.
As versões mais comuns dessa conduta não são gritantes. Elas vêm em tom cuidadoso: "psicólogo só trata o sintoma", "remédio tampa o processo", "isso é espiritual, psicoterapia não vai alcançar", "agora que estamos mexendo aqui, talvez a terapia atrapalhe". Todas essas frases fazem a mesma coisa: afastam você de quem tem responsabilidade profissional sobre o seu cuidado e deixam você dependente de quem não tem.
O mesmo vale para diagnóstico. Nenhum terapeuta espiritual identifica doença, e diagnóstico é ato privativo de profissional de saúde. Se alguém disser que percebeu qual é o seu quadro, isso não é sensibilidade: é uma ultrapassagem grave. Reuni os demais indicadores em sinais de alerta em um terapeuta.
Como combinar sem se atrapalhar
Três ajustes simples resolvem quase toda a confusão.
O primeiro é separar as expectativas. Escreva, para você mesma, o que você espera de cada coisa. Se as duas respostas forem iguais, alguma das duas está sobrando.
O segundo é não começar tudo na mesma semana. Se você inicia psicoterapia, Osatoshi e mais uma prática corporal no mesmo mês, você não vai conseguir saber o que ajudou, e vai cansar. Uma coisa de cada vez dá informação melhor e custa menos.
O terceiro é dar tempo diferente a cada uma. Psicoterapia não se avalia em três sessões. Uma série de Osatoshi tem começo e fim previstos desde o primeiro dia. Os relógios são diferentes e não precisam ser sincronizados.
Quando a resposta é só psicoterapia
Existe um cenário em que eu não aceito conduzir trabalho nenhum, e é justo que você saiba antes de escrever.
Quando alguém chega em sofrimento agudo, sem acompanhamento em curso, procurando uma prática espiritual como primeira e única saída, o trabalho certo é encaminhar. Não porque a prática faça mal, mas porque ela ocuparia o lugar do que resolve e adiaria o que precisa acontecer agora. Adiar cuidado em saúde mental tem custo, e esse custo não é abstrato.
Se você está nesse ponto, comece pela psicoterapia e volte depois, se ainda fizer sentido. Eu vou continuar aqui, e a prática vai continuar sendo o que é: pequena no que promete e específica no que faz. O formato dos atendimentos está em Osatoshi, e a conversa pode ir pelo contato, inclusive para ouvir que o seu caso, hoje, é de outro profissional.
Quer conversar sobre o seu caso?
Falar comigoPerguntas frequentes
- Posso fazer Osatoshi e psicoterapia ao mesmo tempo?
- Pode, e é o arranjo mais comum entre as pessoas que atendo. As duas coisas não competem, porque não fazem a mesma coisa. O que ajuda é que ninguém fique escondendo uma da outra.
- Osatoshi substitui psicólogo?
- Não, em nenhuma hipótese. Osatoshi é prática espiritual sem comprovação científica e não trata transtorno mental nem sofrimento psíquico. Psicoterapia é atendimento de saúde conduzido por profissional habilitado. Quem oferece um no lugar do outro está oferecendo o que não tem.
- Preciso contar ao meu psicólogo que faço Osatoshi?
- Não é obrigatório, mas ajuda muito. Psicoterapia trabalha com o que você traz, e o que você está vivendo em outro espaço faz parte disso. Se você teme julgamento, essa hesitação já é, em si, um bom assunto para levar à sessão.
- E se o terapeuta espiritual disser para eu parar a psicoterapia?
- Encerre com esse terapeuta. Ninguém que não seja o profissional que acompanha você tem competência ou autoridade para orientar interrupção de tratamento, e essa é uma das condutas mais graves que existem na área.
- Fazer as duas coisas ao mesmo tempo não confunde?
- Pode confundir se você tentar avaliar as duas pelo mesmo critério e ao mesmo tempo. Ajuda separar o que você espera de cada uma e dar a cada processo um tempo próprio, em vez de exigir de ambos uma resposta imediata.