Pular para o conteúdo
Caio GraccoTerapias da Completude
Compartilhar

Florais funcionam? O que as revisões científicas mostram

Estão na política nacional de práticas integrativas desde 2018 e mesmo assim as revisões sistemáticas não mostram efeito além do placebo. As duas coisas são verdade ao mesmo tempo.

Por Caio Gracco6 min de leitura

Alguém te deu um frasquinho, você pingou quatro gotas debaixo da língua e ficou com a sensação de que talvez tenha ajudado. Ou o contrário: você acha aquilo água com conhaque e quer saber por que tanta gente séria usa. As duas posições cabem neste texto.

A resposta direta: as revisões sistemáticas disponíveis não mostram efeito dos florais além do placebo. Essa é a situação da literatura científica hoje, e ela não muda porque a prática é antiga, porque muita gente gosta ou porque está numa lista oficial. E aqui vem a parte que confunde: a terapia de florais está na Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares, incluída pela Portaria 702, de 2018, junto com a cromoterapia e outras práticas. As duas coisas são verdade ao mesmo tempo, e entender por quê é o assunto deste texto.

Estar na lista e ter eficácia comprovada são coisas diferentes

Este é o ponto central e ele vale para várias práticas.

A PNPIC é uma política de organização do cuidado. Ela decide o que o SUS pode ofertar, a partir de critérios como recomendação da Organização Mundial da Saúde para que os países organizem em vez de ignorar as práticas tradicionais e complementares, demanda de municípios e realidade de serviços que já ofereciam aquilo. São critérios de gestão e de acesso.

Ensaio clínico e revisão sistemática decidem outra coisa: se um efeito específico aparece de maneira consistente quando comparado com placebo. São perguntas diferentes, feitas por gente diferente, com métodos diferentes.

Por isso a inclusão de 2018 não é um selo de qualidade científica, e também não é prova de que o Ministério da Saúde esteja endossando charlatanismo. O mesmo raciocínio, aplicado ao caso mais conhecido, está em Reiki no SUS.

O que o placebo é, e por que não é insulto

Quando alguém diz que um efeito é placebo, muita gente ouve "você inventou". Não é isso.

Placebo é um efeito real e mensurável, que aparece em quase todo estudo, inclusive nos de medicamentos que funcionam. Ele nasce da expectativa, do ritual do cuidado, da atenção recebida e do simples fato de alguém ter parado para ouvir você. Quem toma o floral e se sente melhor não está mentindo: está experimentando alguma coisa que existe.

O que os estudos dizem é mais preciso do que a conversa de bar sugere. Eles dizem que, quando se compara o floral com uma preparação idêntica sem os componentes, a diferença entre os dois grupos não aparece. Ou seja: o que produz a mudança relatada não parece ser o conteúdo do frasco.

Isso importa por uma razão prática e não por vaidade científica. Se o que ajuda é o ritual e a atenção, você pode obter isso de maneiras mais baratas, mais seguras e que não dependam de comprar nada.

De onde vem a prática

O sistema mais conhecido foi formulado na Inglaterra dos anos 1930 por Edward Bach, médico britânico que abandonou a prática clínica convencional e organizou um conjunto de preparações associadas a estados emocionais: medo, indecisão, desânimo, apego. A ideia central era tratar o estado de ânimo da pessoa, e não a doença.

Existem outros sistemas, criados depois, inclusive brasileiros, com flores locais. A lógica de uso é parecida: uma seleção conforme o estado emocional, algumas gotas por dia, por semanas.

Historicamente, é uma prática de cuidado e de escuta. A parte que envelheceu mal é a explicação sobre como agiria, que não encontra apoio no que se sabe hoje sobre farmacologia e sobre diluições. Dizer isso não desmerece quem usa.

O que eu digo a quem quer usar mesmo assim

Se, sabendo de tudo isso, você quiser usar, eu não vou tentar te convencer do contrário. Adultos tomam decisões sobre a própria vida. O que eu peço é que três condições estejam presentes.

A primeira: que não substitua nada. Se você tem um tratamento em curso, medicação prescrita, acompanhamento psicológico ou uma consulta marcada, o floral entra ao lado, nunca no lugar.

A segunda: que ninguém prometa resultado. Frasco que promete resolver ansiedade, insônia ou tristeza está sendo vendido como remédio, e não é. Se alguém disser que "trata a causa emocional da doença", saia da conversa.

A terceira: que caiba no orçamento sem esforço. Uma prática sem eficácia demonstrada não deve custar caro, e não deve ser vendida em pacote com consulta obrigatória de acompanhamento sem fim previsto.

As ressalvas práticas de segurança

O risco direto é baixo, e é honesto dizer isso também. A maior parte das preparações é altamente diluída e conservada em álcool.

É o álcool que exige atenção. Ele é relevante para crianças, para gestantes, para quem está em abstinência e para quem tem alguma condição em que isso importe. Converse com o pediatra antes de dar a uma criança, e com o seu médico se você tem restrição a álcool.

Existe também o risco de contaminação em preparações manipuladas sem cuidado, e vale preferir produtos de origem identificável, com rótulo, validade e responsável.

E há o risco maior, que não está no frasco: o adiamento. Quando alguém passa meses tomando gotas para uma tristeza que é depressão, o problema não foi o floral. Foi o tempo.

Por que eu escrevo isso sendo terapeuta

Porque a alternativa é pior.

O campo das práticas integrativas tem um vício antigo, que é usar a existência de uma portaria como argumento de venda e esconder a evidência quando ela não ajuda. Isso funciona por um tempo e destrói a confiança de todo mundo depois, inclusive das práticas que têm mais respaldo, como a acupuntura, que tem revisão indicando benefício na prevenção de enxaqueca e merece não ser confundida com o resto.

Ofereço práticas com graus de respaldo muito diferentes entre si, e a única forma honesta de fazer isso é dizer, caso a caso, o que cada uma tem por trás. Isso está organizado em qual das oito práticas é para o seu caso e no texto sobre ímãs, florais e cristais.

O que sobra de útil

Se o que te atrai nos florais é a ideia de cuidar do estado emocional com algum ritual diário, essa vontade é boa e merece ser levada a sério. Ela só não precisa de um frasco caro.

E se o que te trouxe é um sofrimento que já está atrapalhando o seu dia, o frasco é pequeno demais para o tamanho do assunto. Sobre isso, ansiedade no corpo trata de caminhos mais úteis, e o contato fica aberto para conversar sobre o seu caso.

Dizer que uma prática não tem eficácia demonstrada custa clientes. Não dizer custa outra coisa, e essa outra coisa é justamente o que faz alguém confiar em você.

Quer conversar sobre o seu caso?

Falar comigo

Perguntas frequentes

Florais funcionam?
As revisões sistemáticas disponíveis não mostram efeito além do placebo. Isso é o que a literatura científica sustenta hoje, e é diferente de dizer que quem usa está mentindo sobre o que sente. O efeito placebo é real como experiência, e não é evidência de ação do produto.
Se não funcionam, por que estão na lista do Ministério da Saúde?
A terapia de florais entrou na PNPIC pela Portaria 702, de 2018, junto com outras práticas. Política pública decide o que o serviço pode ofertar, com critérios de organização do cuidado e de demanda dos municípios. Comprovação de eficácia é outra decisão, tomada por outro caminho.
Florais fazem mal?
O risco direto é baixo. A ressalva principal é a presença de álcool como conservante na maioria das preparações, relevante para crianças, gestantes e pessoas em abstinência. O risco maior é indireto: usar floral no lugar de um cuidado que resolveria.
Posso dar florais para criança?
Converse com o pediatra antes, principalmente por causa do álcool nas preparações. E vale a mesma regra dos adultos: sintoma persistente em criança pede avaliação, não solução caseira.
Florais substituem remédio para ansiedade ou depressão?
Não, em nenhuma hipótese. Nenhum terapeuta deve orientar redução ou interrupção de medicação. Se você está usando floral no lugar de um tratamento, esse é o ponto que precisa ser conversado com um profissional de saúde.

Para continuar lendo

As práticas

Cristais: como usar

Não existe evidência de efeito terapêutico de pedra nenhuma. O que existe é uso simbólico, e ele tem valor próprio. O problema começa quando alguém cobra caro prometendo efeito clínico.

7 min de leitura

As práticas

Elementoterapia Magnética e ímãs

O que é a prática sistematizada por Karoly Vieira Jardim, como é uma sessão, o que a evidência sobre ímãs realmente diz e a lista de contraindicações que quase ninguém publica.

8 min de leitura

As práticas

Ímãs e segurança

A evidência não apoia ímãs estáticos para dor, e essa é a menor das questões. O que importa aqui é a lista de quem não deve chegar perto: marca-passo, bomba de insulina, gestação e mais.

6 min de leitura

Quero iniciar minha terapia agora

Escreva contando o que está acontecendo. Eu respondo pessoalmente, sem compromisso de agendamento.

Quero iniciar minha terapia agora

(16) 99229-2629 · Segunda a sábado, mediante agendamento