Você é uma pessoa no trabalho e outra no almoço de domingo. Uma no grupo de estudo, outra na roda de amigos antigos, outra ainda naquele grupo espiritual que você frequenta há anos. Nenhuma dessas versões é mentira, mas manter todas de pé consome uma quantidade de energia que ninguém contabiliza. À noite, quando finalmente para, vem a sensação estranha de não saber qual delas está conduzindo a sua vida.
A harmonização de egrégoras é a modalidade que a tradição japonesa da Shinri dedica exatamente a isso: aos vínculos com as coletividades das quais você faz parte, e ao atrito entre elas. E há um detalhe prático que vem já, porque é o que mais interessa a quem está chegando: é a única modalidade sem pré-requisito. Qualquer pessoa pode pedir sem ter feito nada antes. É a porta de entrada mais simples de todo o sistema.
Como sempre, o tamanho da coisa: Osatoshi é prática espiritual, sem comprovação científica, que não trata doença nem transtorno mental e não substitui cuidado médico ou psicológico.
O que é egrégora, sem enrolação
A palavra assusta mais do que a ideia.
Egrégora é o nome que várias tradições dão à energia concentrada de uma coletividade. A intuição de fundo é a seguinte: quando um grupo de pessoas compartilha o mesmo objetivo, os mesmos hábitos e a mesma linguagem por tempo suficiente, forma-se ali alguma coisa que já não pertence a nenhum indivíduo em particular. Um clima próprio, com regras próprias, que continua existindo quando um membro sai e quando outro entra. A definição completa está em o que é egrégora.
Onde existe egrégora, segundo essa leitura? Em todo lugar onde existe grupo estável:
- na empresa em que você trabalha, e no seu departamento dentro dela
- na sua família, e na família do seu cônjuge, que funcionam com códigos diferentes
- na escola dos filhos, na associação de moradores, no condomínio
- no time de futebol, na academia, no grupo de corrida
- no curso, na pós-graduação, na turma de formação
- em grupos espirituais e religiosos, e em qualquer comunidade de prática
- e, cada vez mais, em grupos que existem só online
Você já sentiu isso sem chamar assim. É a diferença de temperatura entre entrar em duas empresas do mesmo ramo. É o jeito como uma família inteira ri da mesma piada que ninguém de fora entende. É o motivo pelo qual uma pessoa muda de postura ao atravessar a porta de certo lugar.
Vale dizer com clareza: egrégora é um conceito de tradição, não um fato demonstrado. Não há medição, não há estudo, não há mecanismo. O que há é uma palavra antiga para uma experiência que quase todo mundo reconhece, e a sociologia descreve fenômenos parecidos com outro vocabulário, falando de cultura organizacional, de normas de grupo, de identidade coletiva. As duas leituras podem conviver, e não é preciso escolher uma para se entender.
Quando pertencer a muitos grupos começa a pesar
O problema não é fazer parte de muitas coisas. É fazer parte de coisas que se contradizem.
Repare no contraste. Uma pessoa que trabalha numa empresa que premia quem entrega a qualquer custo, e à noite frequenta um grupo que fala em desacelerar. Alguém que cresceu numa família onde dinheiro é assunto proibido e passa o dia numa área em que dinheiro é a conversa inteira. Quem vive entre um grupo que valoriza discrição e outro que espera exposição constante.
Nenhum desses grupos está errado. Mas cada um pede uma versão diferente de você, e essas versões não conversam entre si.
Os relatos que chegam com esse pedido costumam ter um formato reconhecível:
- Cansaço que não é do corpo. Você dorme e acorda cansada. O assunto tem texto próprio em cansaço que dormir não resolve, inclusive com o que precisa ser descartado pelo médico antes de qualquer leitura espiritual.
- Dificuldade de decidir. Cada decisão convoca um conselho interno com muitas vozes, todas com boas razões, e nenhuma vence.
- Sensação de não pertencer a lugar nenhum. Você está em todos os grupos e não é inteiramente de nenhum.
- A impressão de que a vida anda, mas não é você quem conduz. Essa é a frase que mais aparece, e é a mais precisa.
- Peso ao trocar de ambiente. Sair de um contexto e entrar em outro custa mais do que deveria.
O que a tradição propõe nesse trabalho
Na descrição da Shinri, a harmonização de egrégoras reúne as energias coletivas às quais a pessoa está ligada, de grupos profissionais, acadêmicos, familiares, espirituais e sociais, e trabalha para que elas se harmonizem entre si.
Repare no verbo. Não é romper, não é desligar, não é escolher. É harmonizar. Ninguém precisa sair de nada, e o trabalho não se propõe a decidir por você quais grupos merecem ficar. A proposta é reduzir o atrito entre eles, para que pertencer a muitos lugares deixe de custar tanto.
É por isso que essa modalidade é o oposto do Divórcio Energético de religião, que trata do vínculo com um caminho do qual a pessoa saiu e que só a própria pessoa pode pedir. Aqui o assunto são os grupos dos quais você faz parte agora, e a intenção é convivência, não corte.
Como o pedido é feito
O trabalho é conduzido à distância, como todas as modalidades de Osatoshi. O que se pede é o nome completo, os dados básicos e, na parte que dá trabalho e vale a pena, a lista dos grupos dos quais você faz parte.
Essa lista costuma ser o momento mais útil de todo o processo, e por uma razão que não tem nada de mística: quase ninguém sabe de quantos grupos faz parte até sentar para escrever. Aparecem coisas esquecidas. Uma associação de que você ainda é membro nominal. Um grupo de trabalho de dois empregos atrás. Uma comunidade que você acompanha há dez anos sem nunca ter pensado nela como pertencimento.
A orientação geral da tradição é a série de três trabalhos, com pelo menos uma semana de intervalo. Sobre os dias seguintes, os relatos mais comuns falam de sono e de uma sensação difícil de nomear, que costuma ser descrita como menos ruído. Alguns descrevem náusea ou dor de cabeça passageira, lidas pela tradição como parte do processo. E há quem não sinta nada de diferente. Isso é comum, e nenhum trabalho honesto transforma ausência de reação em prova de sucesso.
O que esse trabalho não faz
- Não desliga você de nenhum grupo. Não é o objeto e não é o efeito pretendido.
- Não decide o que você deve deixar. Se um dos grupos está fazendo mal a você, quem sai é você, com as próprias pernas.
- Não resolve conflito com uma pessoa específica. Isso é outra modalidade: a harmonização de duas pessoas, que tem regras próprias e um critério de triagem que vale conhecer.
- Não trata cansaço com causa física. Fadiga persistente pede avaliação médica antes de qualquer outra coisa.
- Não substitui psicoterapia. A sensação de não saber quem se é entre tantos papéis é um assunto clínico legítimo, e frequentemente o mais importante.
Se você está começando agora
Muita gente chega ao sistema pelo pedido mais complicado. Quer ativar uma área da vida, quer resolver uma relação, quer tratar a linhagem inteira. E descobre que quase tudo tem etapa anterior.
Esta modalidade não tem. Ela não é a mais profunda, não é a mais completa e não substitui o Osatoshi Individual, que continua sendo o ponto de partida da maior parte dos caminhos dentro da tradição. Mas é a mais simples de pedir, e para quem quer entender de que se trata sem entrar de uma vez num percurso longo, ela cumpre esse papel com honestidade.
Pertencer a muitos lugares não é defeito. É a vida adulta contemporânea, e ela pede mais de você do que qualquer geração anterior precisou dar. O que se pode trabalhar é o atrito, não a quantidade.
Quer conversar sobre o seu caso?
Falar comigoPerguntas frequentes
- O que é uma egrégora?
- É o nome que várias tradições dão à energia concentrada de uma coletividade, aquilo que se forma quando muita gente compartilha o mesmo objetivo, os mesmos hábitos e a mesma linguagem por tempo suficiente. Existe egrégora de empresa, de escola, de família, de time, de grupo religioso, de curso. É um conceito de tradição, não um fato demonstrado.
- Para quem serve a harmonização de egrégoras?
- Para quem circula por muitos grupos ao mesmo tempo e sente que nenhum lugar é inteiro seu. A queixa mais comum é a de estar sempre trocando de versão de si mesma ao longo do dia e chegar à noite sem saber qual delas conduz a própria vida.
- Essa modalidade tem pré-requisito?
- Não. É a única modalidade que qualquer pessoa pode pedir sem ter feito nada antes, o que faz dela a porta de entrada mais simples do sistema. As demais, em graus diferentes, pedem trabalhos anteriores, e as ativações pedem nove ou dez.
- Preciso sair dos grupos dos quais faço parte?
- Não. O trabalho não se propõe a desligar você de nada nem a escolher grupos por você. A proposta, no vocabulário da tradição, é harmonizar entre si as energias coletivas às quais você está ligado, o que é o oposto de romper.
- Qual a diferença entre isso e o Divórcio Energético de religião?
- São opostos em intenção. O Divórcio Energético de religião rompe o vínculo com um caminho do qual a pessoa saiu, e só ela pode pedir. A harmonização de egrégoras não rompe nada: ela trabalha a convivência entre os grupos dos quais você faz parte agora.